A existência de aproximações entre caminhos artísticos sempre foi assunto recorrente. Até porque foram essas confluências que, sem dúvida, possibilitaram o afloramento e a consequente articulação de temas específicos detectados por curadores e artistas agrupados em círculos de pensamento cada vez mais bem definidos no contexto recente da arte contemporânea brasileira.

Tanto que, em 2011, na mostra “Caos e Efeito”, que aconteceu no Itaú Cultural, alguns desses temas foram apresentados como inquietações artísticas que possivelmente permearão toda a década em que estamos.

O que talvez não tenha sido muito explorado, ainda, é o desconcertante fato de que na arte contemporânea diferentes caminhos artísticos sofrem osmoses no mesmo instante em que se repelem em direções diametralmente opostas.

Podemos mais facilmente aceitar esse estranho fato se fizermos uma analogia com as novidades da ciência no campo da física quântica. É como se o paradoxo do gato meio morto, meio vivo de Schrodinger ficasse mais fácil de ser entendido à sombra de outros paradoxos que têm acontecido naturalmente embaixo dos nossos narizes no campo da arte.

É essa coexistência entre aproximações e distanciamentos que esta exposição pretende abordar, mesmo que apenas por um modesto recorte na produção de artistas em início de carreira.

Fabíola Chiminazzo e Luiz Menezes, por exemplo, se aproximam pelo uso da linguagem. Contudo, fazem isso de maneiras totalmente diversas. Chiminazzo, por um lado, se apropria de palavras e signos típicos de documentos. A artista os subverte para construir uma espécie de código poético que sugere reflexões sobre o sistema burocrático em que vivemos. Já a linguagem de que Menezes se apropria não é aquela estabelecida pela norma culta, mas, sim, a marginalizada dos pixadores urbanos. Nela, símbolos totalmente herméticos para o resto da sociedade criam uma comunicação circunscrita a um gueto. Ao transformar essa linguagem em obra de arte, estaria o artista enfatizando esse isolamento ou tentando reconciliar o que está à margem com o que está no centro?

Outra dupla que podemos aproximar e, logo em seguida, separar, são os artistas Victor Leguy e Farago. Ambos têm o olhar atraído pelas cidades, ou melhor, pelo modo como nossa capacidade de percebê-las é dificultada pelo caos nelas reinante. Mas, enquanto o interesse de Farago está em apreender o que pode haver de permanente, Leguy vai em direção oposta, numa tentativa de resgatar pelo registro do desenho, a memória fugidia de cidades em constante mutação. Ao contrário de Farago, é a impermanência das coisas que lhe interessa. Mais precisamente, a impermanência causada pelas repetidas destruições e reconstruções de cidades mergulhadas em conflitos.

Podemos ainda traçar paralelos e afastamentos simultâneos entre Farago e Tchelo, dois artistas que têm a linha como base constitutiva de suas imagens. Contudo, a linha de um é extraída de uma estrutura pré-existente na realidade, enquanto a linha do outro constrói a própria estrutura pelo acúmulo e pela repetição. No trabalho de Farago, os contornos dos prédios e das pontes são o ponto de partida para abordar uma geometria inusitada, raramente detectada pelo olhar que lançamos normalmente para as ruas todos os dias. Já no trabalho de Tchelo, as linhas apontam para uma tensão entre o corpo e o desenho, estressando a relação entre o fazer e a imagem. De um lado, a linha é mental. Do outro, é matéria. Não por acaso, uma dualidade quântica por excelência.

 

Fábio Leão. Maio de 2013.