Mais do que um dado, o tempo é uma percepção. Uma dedução lógica dentro de ciclos notáveis do universo natural. A memória humana, sem dúvida funda a marcação do tempo, para o bem e para o mal. A exposição Como se constrói o tempo procura marcações da relação temporal a partir do conjunto das narrativas individuais dos membros do grupo de estudos orientado pelo curador da mostra, Paulo Gallina.
A primeira obra, colocada à entrada da exposição, incita o expectador a pensar o tempo e imergir dentro do trabalho. Esta peça, produzida por Bina Monteiro, reaprensenta ao público a figura mitológica de Kairós, deus do tempo imensurável e imprevisível, pintada pelas mãos do pintor belga Peter Paul Rubens. Ao propor uma referência clara à história da arte, Bina Monteiro reitera o pensamento em pintura que a motiva à forja de imagens com superfícies metálicas recortadas de latas e chapas utilizadas na indústria. Os materiais eleitos por Bina em alguma medida parecem inquerir o visitante a pergunta: O tempo contemplativo da pintura, ainda existe dentro da sociedade de cultura de massa em que nos encontramos?
Ladeando a pintura de Bina Monteiro, o compasso das fotografias de Claudio Souza parece fundar um compasso através de um personagem que, estando preso, circula em paisagens urbanas variadas. O personagem, um boneco Playmobil presidiário, alude aos seres humanos em sua condição social, presos por laços por vezes aceitos e por vezes herdados à sua condição. Através da circulação deste personagem inesperado, Claudio consegue criar uma pauta, métrica, para os dias e os olhares que constroem seu personagem e o observador de sua obra.
Ainda nesta parede, a obra de Alexandra Ungern rompe com a observação orientada a questões pessoais e sociais apresentando ao púbico o horizonte onírico de uma cadeia de montanhas onírica desenvolvida pela artista. Nesta instalação, Alexandra desenhou e pintou picos descritos na narrativa pessoal de um membro de sua família. A despeito da intima relação da artista com a paisagem retratada, a eleição do desenho como suporte para sua obra explicita a noção de identidade: afinal o que se lembra pode ser falseado em nossas memórias. Da mesma maneira que a memória é capaz de falsear-se inventando assim parte da identidade do sujeito, o desenho guarda em si esta qualidade em oposição à mimese fotográfica. Esta relação entre o presente e o passado assumida a partir de uma memória que nem é da artista integra o argumento desta exposição ao explorar como falseamentos pretéritos podem consciente ou inadvertidamente alterar a identidade de um individuo, de um grupo ou mesmo de uma nação.
Retornando à pintura, o trabalho do mineiro Marcelo Colares aproxima-se tanto às teses de Claudio Souza, quanto de Alexandra Ungern ao revelar uma qualidade rítmica criada na movimentação dos chassis instalados na parede e na relação entre pontos, linhas e campos de cor. Para compor esta peça, Marcelo utilizou-se das dimensões de seu corpo e de gestos longos. Movimentos singularmente revelados no olhar atento e contemplativo que mergulha no trabalho ao aproximar-se dele. Visto amiúde, esta peça revela cada passo gestual proposto pelo artista, enquanto a visão panorâmica das [quatro] peças constroem um caleidoscópio capaz de olhar de volta e para dentro do expectador.
Pedro Serliatec apresenta nesta exposição três peças: uma pintura e duas instalações. Cada uma aludindo ao tempo com uma proposição individual. A primeira peça apresentada no sentido programado é uma pintura inesperada. Feita com caneta esferográfica e silvertape, Pedro explora o espaço de sua composição em quadrantes, lembrando a separação de um plano cartesiano. Cada uma das quatro áreas recebe uma qualidade de intervenção, que conversa com as áreas adjacentes sem transgredir os campos insinuados. As linhas, forjadas à fita adesiva ou a caneta, são uma transgressão sutil à máximas claramente arcaicas mas razoavelmente aplicadas ainda hoje no ensino de pintura, frases herméticas como “a linha pertence ao desenho, porque em pintura quem é capaz de falar é a cor e seus campos. Assim dentro da história da pintura, não raro, a linha tornou-se o encontro entre dois campos de cor” são contraditas na obra de Pedro Serliatec. Enquanto a pintura de Pedro subverte antigos cânones, suas instalações parecem mas interessadas em nosso presente. Tanto O horizonte é um meio, não um fim (2014), quanto Empate (2017) indicam e exploram a construção e compartilhamento do tempo entre o indivíduo e seu par ou seu entorno.
Por fim, a obra de Tiago Marchitiello projeta a fundação de um tempo mitológico. Uma interpretação que se pode dar a este substantivo tão corriqueiro [tempo] é a notação de que o tempo é a medida narrativa das coisa. A capacidade de permanência de algo pode ser medida por seus ciclos, alguns ciclos são breves como os segundos, outros longos como os milênios; não obstante a percepção humana organiza-se por ações e não por ciclos. Ou seja, a memória humana se constrói pela marcação dos eventos ao redor de quem se lembra e não pela data do calendário. Se o tempo pode ser pensado como a medida narrativa de algo, da relação entre permanência e impermanência criada nos indivíduos, a pesquisa pictórica de Tiago Marchitiello pode ser pensada como a fundação mitológica de uma nova humanidade não limitada por seus cinco sentidos, mas contida dentro deles e em contante expansão dos sentidos literais e figurados que cada indivíduo consegue produzir.
Ao promover uma alegoria para o mais imaterial dos substantivos é, no caso de nossa exposição, pensar o tempo como a superfície de um lago agitada pela miríade de gotas trazidas pela chuva. Nesta alegoria, cada ato artístico seria um pingo de chuva e as ondas, que reverberam, se esbarram e se reconfiguram, são a narrativa histórica humana redesenhada, reverberada e re-escrita sempre a partir do presente.  Cada trabalho presente no espaço expositivo, a sua maneira, rememora e reinventa o passado perdido, encontrado na memória e no invento uma solução para a grande dúvida que pode ser a vida.

Paulo Gallina
Janeiro de 2018.